Edinho do Samba, Jaime e Adair: os depoimentos que faltavam

Nas últimas semanas, o projeto Mestres no Estúdio registrou outras duas memórias, encerrando a fase de coleta de depoimentos. Foi a vez dos mestres Edinho, da escola de samba Acadêmicos do Morro; e de Jaime e Adair, ambos da Companhia de Reis Tira Couro. Os três moram em Três Corações, onde foram gravadas as entrevistas.

Edinho lembrou durante duas horas de conversa a época em que as escolas de samba eram moda no interior. Os desfiles na cidade tinham disputa, apuração e tudo mais. A rivalidade entre famílias politicamente e economicamente influentes também aparecia na competição, com alguns patrocinando uma ou outra agremiação. Jajumô, Anhanhoa, Por Acaso e Imperatriz Rioverdense eram as rivais da Acadêmicos. Em alguns anos, no entanto, houve parcerias para formar um só desfile, como lembrou.

A conversa com Jaime e Adair teve início com a folia de reis mas não ficou só nisso. Os dois lembraram muito da época dos desafios, em que era moda disputar um repente nos bailes. Ao som da viola, tocada por Adair, Jaime mostrou como eram os versos. A rima de um repentista abre margem para a resposta do adversário, e os dois duelam até que um engasgue ou desista. Seu Jaime garante que era difícil ganhar dele.

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Visita ao mestre Vicente Lima, da Catira

Vicente Lima, violeiro e poeta, de São Bento Abade
Vicente Lima, violeiro e poeta, de São Bento Abade

Nesta quarta-feira demos sequência ao projeto com mais uma visita, desta vez ao mestre Vicente de Paulo, ou Vicente Lima, do grupo de catira de São Bento Abade. Poeta, violeiro e contador de causos nato, Vicente tem grande presença de espírito. Emposta bem a voz para narrar os fatos, sabe usar bem as palavras para chamar a atenção e, claro, floreia um ou outro trecho da estória — tem licença poética para tal.

Ainda jovem, seu Vicente caçava animais com grupos de amigos — 90% dos bichos que viu não existem mais, garante. Expulso da escola aos 11 — por excesso de travessura –, calçou o primeiro par de sapatos apenas aos 16 anos.  Por ordens do pai, foi trabalhar na roça ainda adolescente, onde formou caráter e de onde tirou (e ainda tira) inspiração para os versos que escreve e fala de improviso.

Com ajuda de mais dois irmãos, Vicente comanda o grupo de catira da cidade. Conta que incorporou outras batidas de viola, como o cururu e o pagode, à dança, que até então se limitava à moda campeira. Apesar do talento para compor versos, o violeiro não cria músicas: “toda vez que tento fazer uma música, fica igual outra que eu já canto no grupo”.

Visita ao mestre Albino dos Reis

Seu Albino, Mestre de Congado de Cambuquira
Seu Albino, Mestre de Congado de Cambuquira

Nesta quarta, dia 17, tivemos mais uma visita dentro do projeto Mestres no Estúdio, do Museu da Oralidade. A conversa foi com o mestre Albino dos Reis Rodrigues, herdeiro da família Gato, que faz história com as festas de Congado em Cambuquira. Neto de Toninho Gato e sobrinho de dona Ana Gatinho, Albino movimenta o grupo de Congado no bairro da Lavra, onde também comanda a Folia do Divino e a Folia de Reis. Albino não apenas contou histórias, como também entoou alguns cantos que misturam domínio público com composições próprias.

Ô Nossa Rainha, já está na hora
Vamos com Deus e a Nossa Senhora

O Rei e a Rainha são dois companheiro
Nossa Senhora e São Benedito são festeiro

As histórias de Dona Roxinha

Nesta última terça-feira, 28, o projeto Mestres no Estúdio visitou a rezadeira e parteira Maria Roxinha, de 93 anos, moradora de Cambuquira. Foi a inauguração — em grande estilo, aliás — da fase de coleta dos depoimentos.

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Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio

Com a ajuda de duas filhas e de amigas, Roxinha rememorou boas histórias que guarda na memória. São relatos inspiradores, que remontam a outros tempos, em que as dificuldades do mundo eram outras. Neta de escrava liberta pela lei do ventre livre, ela nasceu em um fazenda de Três Corações, onde o pai trabalhava na capina e em outras tarefas da roça. Ainda criança, mudou-se para Cambuquira, onde aos nove, meio que por acaso, ajudou no primeiro parto, de uma vizinha. A intocada fé católica ajudava no trabalho, com as rezas entoadas para que tudo corresse na mais serena tranquilidade.

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As rezas, aliás, são a principal razão para que Roxinha ficasse conhecida nas redondezas. Cobreiro, alergias, infecções de pele e outros males do gênero foram curadas a partir da interferência de dona Maria. Bastava rezar para que os enfermos se curassem em poucos dias. Tanto que ainda hoje, aos 93 anos, o serviço continua rendendo a presença de visitantes em busca de um alento para doenças. Roxinha conta que, em suas rezas, não evoca nenhum santo intermediário, mas fala direto com Deus.

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As histórias, entretanto, vão além das rezas. Dona Roxinha participou de festas de folia de reis, congado e terços de São Gonçalo, além de encenar peças de teatro na juventude. Marido? “Não tive, graças a Deus”, diverte-se.

Dona Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio
Dona Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio

Nas próximas semanas, como parte do projeto, trabalharemos com a transcrição completa do áudio, para podermos estudar o material e aprofundar na pesquisa de história oral. O músico Ronildo Prudente já está trabalhando na composição de uma canção, que será gravada em nosso novo estúdio, com base nas histórias contadas pela personagem.

Outros quatro personagens participarão deste projeto, que nos próximos meses vai revirar a cultura popular da região de Três Corações.