A opção pelo software livre

Mais do que registrar memórias e compor, editar e mixar músicas no estúdio e lançar produtos culturais concretos, nosso projeto trabalha na perspectiva da experimentação destes processos — ou seja, valorizamos o processo como um resultado em si. Inclui-se neste contexto a opção pela utilização de softwares livres, em especial o pacote Ardour, um aplicativo do segmento DAW — digital audio workstation (estação de trabalho com áudio digital, em inglês) — capaz de gerar arquivos musicais de altíssima qualidade.

ardour

A filosofia do software livre — ou de código aberto, como alguns preferem — vai além da ideia da gratuidade. Softwares livres são programas de computador que tem o código-fonte liberado por seus respectivos programadores para estudo, distribuição e modificação para quaisquer fins. Em outras palavras, os aplicativos podem ser livremente alterados por qualquer pessoa que tenha conhecimento para tanto, instalados pelos usuários quantas vezes e em quantos computadores se queira e utilizados para qualquer propósito. É uma contraposição ao modelo dito proprietário — aquele mantido pelas grandes indústrias corporativas –, em que há uma série de restrições, desde as financeiras — pagar para usar — até políticas — vedação de uso em determinados países “inimigos”.

Naturalmente que, por suas características, o mercado de software livre é mais democrático, aberto à concorrência e à solidariedade. O entusiasta e programador Eric Raymond resumiu a comparação entre as duas filosofias de produção, distribuição e consumo de software (livre e proprietária) na metáfora A Catedral e o Bazar — título da obra em que exemplifica as diferenças entre um modelo rígido e centralizado e outro, volátil e pulverizado. Utilizar, distribuir e promover o uso de softwares livres significa dar mais oportunidades, gerar mais empregos, mais autonomia e mais empreendedorismo. Daí a importância de estímulo público a essa potente cadeia produtiva.

Para além da questão econômica, existe o impacto cultural da filosofia do código aberto. A filosofia do software livre extrapolou a área da informática e contaminou a produção cultural como um todo, com a proliferação das chamadas licenças livres — entre as quais se inclui a iniciativa Creative Commons. Atualmente, filmes, livros, álbuns de música e tantos outros conteúdos são distribuídos livremente na internet, com possibilidade de recriação do conteúdo alheio, desde que autorizado previamente pelo autor. Tanto que o Ministério da Cultura do Brasil reconheceu, no início da era Gilberto Gil, a cultura digital — termo usado para encampar essa filosofia — como uma das diretrizes das políticas públicas da área. O programa Cultura Viva se lançou à aventura de fomentar o cibermundo colaborativo e, neste macrocontexto, o Museu da Oralidade foi reconhecido como Ponto de Cultura — numa longa história que nos traz até aqui.

Nos próximos meses entramos em mais um capítulo dessa novela de experimentação e criatividade com nossa imersão no mundo da cultura popular e das artes digitais. Mais do que os simples resultados finais, esperamos compartilhar também mais aspectos dos bastidores, como trouxemos nesta postagem.

Autor: Paulo Morais

Jornalista, coordenador de projetos na Viraminas Associação Cultural. Pesquisador do Ponto de Cultura Museu da Oralidade.

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